Calcula-se que atualmente só em Portugal Continental existam cerca de 3995 espécies diferentes, englobando-se neste grupo todas as plantas vasculares autóctones, endémicas e introduzidas.
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A flora Portuguesa, bem como de toda a Península Ibérica, constitui uma das mais variadas e ricas de toda a Europa, constituindo ainda um importante reservatório de diversidade genética, devido às suas condições geográficas, geológicas e orográficas. Portugal enquadra-se dentro de duas grandes regiões biogeográficas, a Eurosiberiana e a Mediterrânica, sofrendo, contudo, ainda influência das regiões da Macaronésia e Sahara-sindiana. A vegetação portuguesa constitui, assim, uma mistura de espécies atlânticas, europeias e mediterrânicas, variando a sua distribuição de acordo com a região em que se desenvolvem. A divisão destas regiões não é naturalmente bem definida, existindo áreas de influência dos vários tipos de vegetação, havendo algumas espécies que têm o seu habitat preferencial nessas zonas de convergência. A norte podem encontrar-se as espécies mais europeias e mais a sul predominam as espécies de origem mediterrânica.
Mas será que a vegetação Portuguesa foi sempre a mesma? Talvez seja importante recuar um pouco atrás para entender como tudo aconteceu.
Até ao início da Era Miocénica a Península Ibérica apresentava um macroclima do tipo tropical a subtropical e húmido. Com chuvas bem distribuídas ao longo do ano, e com uma estação fria amena e sem geadas. A vegetação que aí prolifera era do tipo tropical e subtropical, destacando-se pela sua abundância as áreas dominadas por florestas de lenhosas de folhas grandes, largas, persistentes, sem pelos, rijas, lisas e brilhantes denominada por Laurissilva, onde predominavam espécies como do género Laurus L., Myrica L., Persea Mill., etc. Dominavam ainda espécies atualmente restringidas aos trópicos, como por exemplo a Chamaeropsis humilis, atualmente confinada ao Sul da Península Ibérica, assim como outros géneros característicos da flora temperada ou subtropical do hemisfério Norte. Nas áreas costeiras era frequente o surgimento de mangais.
O clima na Península Ibérica durante esse período, era ainda propício à ocorrência de espécies adaptadas à secura, por exemplo Quercus L. de folha persistente e Juniperus L.. Outras espécies, como sejam dos géneros Arbutus L., Cistus L., Olea L., Pinus L., etc. também já começavam a estar representados como vegetação de substituição devido a determinadas perturbações (ex. incêndios).
Depois desta era, mais propriamente a partir do Miocénico médio, e durante as grandes mudanças climáticas do Pleistoceno, a flora e a vegetação da Península Ibérica, foram sofrendo constantes modificações devido à sucessão de convulsões geológicas e macroclimáticas. Os movimentos tectónicos ocorridos durante o Plioceno e o Pleistoceno, levaram às grandes modificações de relevo actualmente representadas em Portugal continental. Outra das modificações surgiu no final do Mioceno, quando ocorreu a dessecação do Mar Mediterrânico que levou à continuidade terrestre entre o Norte de África e a Península Ibérica e à crise de salinidade do Messiano, levando a que as espécies vegetais passassem a ter condições ideias para se desenvolverem e criarem novas e inúmeras variedades adaptadas a condições de secura e a solos ricos em sal.
As glaciações que ocorrem durante o Pleistoceno, e a instabilidade climática, assim como o progressivo arrefecimento, o aumento da diferença entre as temperaturas médias de Verão e Inverno e a crescente sazonalidade da precipitação e da temperatura, levaram à regressão da vegetação e até mesmo à extinção de alguns indivíduos. Calcula-se que 80% do período de Pleistoceno tenha sido frio e seco. A vegetação que até então dominava na Península Ibérica encontrava-se em declínio, e francamente empobrecida, concentrando-se em áreas litorais de baixa latitude e altitude, em locais quentes, vales profundos ou em escarpas expostas ao sol.
As primeiras espécies a desaparecerem foram as mais exigentes no que respeita à temperatura e água, seguindo-se, mais tarde, muitas outras.
Existem atualmente, em Portugal, algumas relíquias desses bosques tropicais e subtropicais, como é o caso do Ilex aquifolium (azevinho), do Taxus baccata (teixo), do Laurus nobilis (loureiro), Prunus lusitanica (azereiro), Buxus sempervirens (buxo), Myrica faya (samouco), Arbutus unedo (medronheiro), Olea europaea var.sylvestris (zambujeiro), Phyllirea media (aderno), Viburnum tinus (folhado), Myrtus communis (murta), Rhododendron ponticum subsp. Baeticum (adelfeiro), etc.
As modificações surgidas durante o Pleistoceno, despoletaram, assim, a formação de um grande número de novas espécies vegetais, sendo portanto, durante esse período, que se diversificaram os géneros característicos da vegetação mediterrânica, como exemplo, Cistus L., Olea L., Pistacia L., Quercus L., Thymus L., Rosmarinus L., etc. Outras espécies, mais adaptadas a climas temperados, foram surgindo e criando sistemas de adaptação às novas condições edafo-ecológicas, ou seja, espécies desprovidas de folhas durante a estação fria, como é o caso de espécies dos géneros Quercus L., Fagus L., Castanea Miller, Acer L., Alnus Miller, Betula L., Populus L., Salix L., Corylus L., Fraxinus L. e Ulmus L.. Destacam-se ainda algumas resinosas dos géneros Abies e Picea. Algumas comunidades de vegetação herbácea, adaptada à secura e ao frio, dominadas por gramíneas, começam também a expandir-se e a apoderar-se dos espaços anteriormente ocupados pela vegetação de cariz tropical e sub-tropical.
Mais tarde, durante no início da época do Holocénico e logo após à última glaciação, o aumento da temperatura e da pluviosidade impulsionaram um alargamento da área de destruição de algumas espécies vegetais em direção às áreas de maior altitude e ao interior da Península. Em Portugal continental, os Juniperus e os Pinus característicos do Pleistoceno, tendem a extinguir-se e a serem substituídos por outras espécies vegetais dos géneros Quercus (carvalhos, sobreiros, azinheiras, etc.), Betula (vidoeiros), Pinus (pinheiros bravo, pinheiros manso e pinheiros silvestre) e, pontualmente, Juniperus (zimbros). Nas zonas montanhosas do Norte e Centro do País deu-se uma subida, em altitude, de algumas espécies, Betula sp. e Pinus sylvestris (pinheiro silvestre). Tendo este último ficado isolado nos afloramentos rochosos de maior altitude, acabando quase por se extinguir, quer pela ação conjunta da escassez do habitat disponível, quer pela ação das comunidades humanas, através do uso do fogo. A Betula sp., por sua vez, sendo uma espécie pioneira, rapidamente ocupou os solos mais espessos libertados pelos gelos.
Além de habitats marginais, o Pinus pinaster (pinheiro bravo) e o Pinus pinea (pinheiro manso) revestiam muitas das áreas litorais e continentais onde actualmente imperam espécies como o Quercus suber (sobreiro), o Quercus ilex (azinheira) e o Quercus coccifera (carrasco), todos de folha persistente.
Nesta época a paisagem vegetal do território continental português era iminentemente florestal, no entanto, as florestas não eram contínuas, existiam extensas comunidades arbustivas e herbáceas, constituídas essencialmente por matos, prados, etc., que se formaram por ação de perturbações naturais como o fogo, o pastoreio, o pisoteio de animais selvagens, o deslizamento de solos, as enxurradas, os ventos, as doenças, etc. Neste período essa vegetação arbustiva (estevas, urzes, tojos, torgas, carqueja, etc.) era escassa e associada essencialmente a escarpas e outros afloramentos rochosos.
A ação do homem, através de várias atividades, como por exemplo as queimadas para gestão da vegetação, o incremento de áreas de pasto, etc., levou a que esta vegetação se alastrasse reduzindo assim drasticamente as áreas florestais. Estas alterações levaram à substituição dos ecossistemas naturais por ecossistemas semi-naturais ou por agroecossistemas. O cultivo de cereais, a domesticação de animais, o abate de árvores para produção de lenha e carvão, etc., no período de transição para o Neolítico, levaram à degradação da vegetação existente.
Por outro lado, os descobrimentos e respectiva expansão tiveram também um grande impacto na devastação e desflorestação das formações vegetais do país, sobretudo no que respeita ao abate de árvores para a construção naval e posteriormente para o fabrico de travessas para os caminhos-de-ferro.
Já no século XX, com o abandono da agricultura inicia-se um período de restauro da floresta, porem as marcas do passado persistem, porque a dinâmica da vegetação, após abandono é fortemente condicionada pelas condições iniciais. Enceta-se assim a rearborização artificial com Pinus pinaster, o que transformou o nosso país num imenso pinhal, contudo mais tarde, devido aos incêndios e às más gestão e ação do homem, parte destas áreas são reconvertidas e transformadas em imensos eucaliptais e acaciais. Os eucaliptos, são plantados indiscriminadamente pelo valor económico que apresentam, já as acácias por serem invasoras bem adaptadas a zonas ardidas invadem rapidamente áreas desprotegidas.
Assim pode afirmar-se que a vegetação portuguesa actual, sofreu com as inúmeras alterações. Tendo havido um incremento da abundância de espécies com adaptações esclerófilas, de folha pequena, plana, perene e rígida, (Quercus ilex e Quercus suber) em detrimento das espécies caducifólias (Quercus pyrenaica e Quercus robur) e marcescentes (Quercus faginea e Quercus canariensis). Nos espaços não agrícolas, abandonados, há uma maior dominância de matos tolerantes ao fogo (Cistus sp., Erica sp., Calluna sp.). Os solos ficaram mais empobrecidos no que respeita à riqueza em nutrientes bem como ao nível das propriedades físicas, nomeadamente na espessura, ou camada arável. Estas alterações nas propriedades dos solos acompanhadas das alterações ao nível dos ciclos hidrológicos levaram ainda a uma dessecação generalizada do território. As plantações artificiais com eucalipto e a invasão das acácias têm acentuado o empobrecimento da biodiversidade.
Bibliografia consultada:
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May, D. H. (1989). Development and regional differentiation of the European vegetation during the Tertiary. In: Ehrehdorfer, F. Woody plants: evolution and distribution since the Tertiary. Plant Systematics and Evolution 162 (1/4): 79-91.
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